terça-feira, 5 de agosto de 2014

A comunicação interna na gestão de crises

Quantos porta-vozes sua organização possui? A resposta correta é “tantos quantos empregados eu tenho”. Essa pergunta, feita pelo especialista em gestão de crises, Jonathan Bernstein, serve como pretexto para uma série de dicas sobre como administrar a crise com o público interno. Em momentos difíceis, as organizações se preocupam com a mídia ou stakeholders externos. E esquecem o principal público: os empregados.
Embora as organizações possam e devam ter uma política que somente determinados funcionários sao “oficialmente” autorizados a falar em on, na realidade, muitas vezes isso não funciona como a organização desejaria. Muita gente acaba falando, sem estar autorizada.
Se um repórter telefona e você tem uma política estabelecida de porta-vozes, a chamada será, provavelmente,  encaminhada corretamente. “Mas isso não impede que sua secretária, um estagiário ou um executivo júnior dê sua versão dos fatos aos familiares, amigos, vizinhos, colegas do clube e qualquer outra pessoa que eles conhecem. Em pessoa, por telefone, e-mail ou até mesmo por meio das redes sociais, Twitter, Facebook, Orkut”, diz Bernstein. 
Segundo Bernstein, “cada funcionário é um representante das relações públicas de sua organização, quer você queira ou não”. O público interno é, se não mais, tão importante quanto o público externo, durante uma crise. E ainda mais: aqueles que não fazem parte realmente da equipe de resposta à crise, muitas vezes recebem pouca ou nenhuma consideração, quando o tema negativo bate no ventilador. A preocupação maior é com aqueles públicos que, aparentemente, fazem maior estrago: mídia, fornecedores, parlamentares, sindicatos. 
“É vital, durante o processo de planejamento de comunicação de crise,  formular as mensagens mais importantes não só para os funcionários, mas também para os outros que estão perto o suficiente para a organização considerá-los como “público interno" – como, por exemplo, estagiários, terceirizados, consultores regulares e grandes fornecedores. Eles são os únicos que vão ser perguntados em primeiro lugar, pelo público externo (incluindo repórteres, quando tentam cercar a empresa num momento de crise), com aquela fatídica pergunta "o que está acontecendo?", segundo o especialista. 
Bernstein dá algumas dicas para preparar o público interno e transformá-lo para ser um trunfo na estratégia de resposta à crise: Desenvolver uma a três mensagens-chave sobre a situação que sejam simples o suficiente para que todos possam compreender, lembrar e usar no seus afazeres diários. 
Em uma situação extremamente sensível, as mensagens podem ser nada mais do que declarações tranquilizadoras e "comentários positivos", como,  por exemplo, "o nosso dia-a-dia é completamente pouco afetado por isso".
“Apesar do problema nós sabemos que isso vai acabar bem para nós, quando todos os fatos forem conhecidos e explicados ", ou, "nós pertencemos a uma organização muito boa e eu tenho orgulho de trabalhar aqui”. Mais ou menos isso. 
O importante é não deixar que o público interno, o principal formador de opinião sobre a organização, seja um agravante para sua crise, repercutindo fatos, notícias que a mídia, concorrentes e desafetos políticos adoram repercutir. 
Informar todos os funcionários em pessoa sobre o que está acontecendo e mantê-los informados numa plataforma regular. Nos briefings pessoais dizer "nós nos importamos com você" ou “nós temos o maior cuidado com vocês, empregados” de uma maneira que nenhum memorando ou boletim interno possa rivalizar, embora algumas vezes a comunicação escrita seja a única opção, principalmente em empresas de dimensão nacional e internacional.  
Certamente, nenhum empresário ou dirigente da organização gostaria que o público interno lesse o que está acontecendo, ou os fatos alegados, no jornal local ou através dos meios eletrônicos em primeiro lugar. Além de um desrespeito para com o público interno, afeta o clima organizacional. Ninguém quer ser o último, a saber. Para evitar isso, mantenha-os completamente informados. Transparência total. 
Identifique seus melhores "porta-vozes não oficiais" e seus "fofoqueiros, boateiros de plantão." Os primeiros são os empregados que você sabe que são leais, sabem quando falar e quando manter a boca fechada, e que são admirados por seus pares. Se eles sentem que estão recebendo informações precisas e estão sendo cuidados, respeitados, eles vão passar esse sentimento para os outros, juntamente com as mensagens-chave que você compartilhou. 
Fofoqueiros ou boquirrotos são aqueles que simplesmente não sabem quando calar a boca, cujos sentimentos - às vezes de deslealdade ou descontentamento, às vezes por excesso de lealdade ou vontade de aparecer – levam-nos a comunicar não somente fatos, mas rumores e insinuações. Durante crises, boquirrotos devem receber aconselhamento adicional de forma educada, mas firme, sobre comunicação adequada ou ser particularmente bem isolado de informações sensíveis e, principalmente, das sigilosas. 
Fornecer meios pelos quais os públicos internos possam fazer perguntas e obter respostas rápidas. Você pode designar certos indivíduos de confiança (executivos, gerência média) como "representantes de controles de rumores", que irão fazer perguntas e obter respostas de alguém pertencente à equipe de resposta oficial de crise.  É importante também ter um meio anônimo de fazer perguntas (ou denúncias), como um endereço eletrônico, sem registro do remetente, e uma caixa postal fechada para inserção de boletim em que as respostas às perguntas anônimas são postadas. Todos os funcionários podem ser encorajados a usar um método de comunicação sem medo de represálias. 
Segundo Jonathan Bernstein, “Nenhum sistema de controle de rumor é completo, sem acompanhamento global de ambas as mídias: tradicionais e as centradas em comunicação online - sites relevantes, blogs e Twitter, em particular.”

“A implantação bem sucedida de um programa de comunicação interna vai levar a sua mensagem chave melhor, mais e mais longe do que a maioria das comunicações externas, enquanto a falta de comunicação interna pode minar, completamente, mesmo a melhor estratégia externa. Os dois podem e devem ir de mão em mão”, conclui o especialista.

Nenhum comentário:

Postar um comentário